Casou com ela. Porque ela engravidou. Não lhe ocorreu outro atalho. Na sua cabeça de homem menino, entendeu, convictamente, que era o único caminho possível de ser trilhado. Sossegou quando tomou a decisão. Era verdade que era ainda um menino, mas, que diabo!, tinha a família disposta a ajudar, os amigos dispostos a ajudar, só podia correr bem.
Era ainda um menino. Tinha a vida de um menino; primeiros passos, ainda hesitantes, na profissão; saídas à noite, com a namorada (a que engravidou) e com os amigos, sempre em separado; sim, porque são dois mundos que não se devem misturar e, de qualquer maneira, a namorada não gostava muito de saídas à noite e ainda gostava menos dos amigos. Eram, aliás, dois mundos perfeitos: o rapaz que faz gala em sair só com os amigos, mas apregoando aos sete ventos que não é por nada, que só gosta de beber uns copos na companhias de machos como ele para falar de futebol e daqueles assuntos que os homens falam quando sozinhos, e uma rapariga que, depois de (pensa ela) ter encontrado o futuro marido (ainda namorado) já não é preciso sair à noite com ele, sorrir-lhe, dançar com (para) ele, enfim, seduzi-lo, fazer tudo o que fez e não parou de fazer enquanto não o conseguiu, ao rapaz; a rapariga que, qual perfeita donzela, cozinha, e feliz, depois do marido (ainda namorado) elogiar o cozinhado, não estranha que ele vá "ali só beber um cafézinho", enquanto ela se entretém com as lides novelescas.
Casaram, com casa pronta, bebé a caminho e tudo para correr bem. Ela, feliz porque o sentido da vida estava a formar-se, ele, feliz, porque é o dever de um homem, e nestas alturas o dever tem muito peso, o resto (as outras) logo se vê.
Nem mesmo quando a mãe dele, conhecedora da vida, o puxou para um cantinho, lhe deu um abraço, dizendo-lhe que nem tudo são deveres, que também é possível viver a vida tão livremente como um passarinho, mas sempre providenciando para que os filhotes sejam devidamente alimentados e agasalhados, nem aí, abandonou a ideia. Porque lá no fundo, tinha a convicção que estava a fazer a coisa certa e, claro está, ia correr bem.
Casaram, mas a vida que é extraordinária, preparou aos dois um futuro em nada semelhante ao que um e outro haviam ensaiado: três meses depois do casamento, ela sofreu um aborto espontâneo.
Continuaram juntos, porque, afinal de contas, também gostavam um do outro; porque ele continuava a ser o marido e filhos haviam de vir mais, porque ela até era boa dona de casa, cozinhava bem e não aborrecia quando ele queria seguir a farra com os amigalhaços.
Não tinham ainda passado outros três meses quando, um dia, ele pensou que não, que afinal não era aquela a vida que queria, não era aquela a mulher que queria, não eram aquelas saídas à noite que queria. Que diabo!, novamente pensou: ainda seria possível apaixonar-se à séria, ter uma namorada-mulher que gostasse de sair à noite, não precisar de sair só com os amigos à procura sabe-se lá do quê.
Quando assim pensou, concluiu que na sua vida só a profissão estava certa: então acabou o casamento, agarrou a profissão, pegou-lhe com jeitinho e fez-se à vida. De tal forma convicto, que mudou de terra, de país, deixou as amizades com promessas de duração eterna e partiu para uma nova aventura, longe de tudo o que conhecia.
Se correu bem? Conheceu novos mundos e vestiu-se de sucesso no trabalho. Os amores? Descobriu mulheres divertidas com quem é bom sair à noite, e que não engravidam assim sem mais nem menos. Conheceu uma e mais uma e ainda outra até que se apaixonou e viveu a paixão com a mesma convicção com que tinha marcado o dia do casamento. Mas, a vida que é extraordinária, reservara-lhe outros planos e a paixão não correu bem, chegou ao fim.
Hoje? Deixou de ter aquela convicção inabalável que o guiou nalgumas alturas da sua vida.
Mas é feliz.
