de Maria Isabel Batista in olhares.comLembras-te?
Eram estas que eu te pedia. Pacientemente explicavas-me, uma e outra vez que não, que estas não eram flores para roubar à vida. Porque, dizias, empalideciam à mera suposição de serem aprisionadas por capricho humano.
Lembro-te nos campos a ensinar-me o nome das árvores (amoreira, a única de que havia memória para aqueles lados), o nome dos arbustos (alfazema, já conheces, que dá bom cheiro às nossas gavetas), o nome dos pássaros (águia real, linda, não é?), tantos nomes de tantas coisas que aprendi contigo.
Ensinaste-me a respeitar a ordem natural do mundo, a perceber que tudo na vida tem um tempo, tu que regias a tua pelos ciclos das vidas que te rodeavam. Que não adianta contrariar a natureza, porque a natureza tem vontade própria e não cumpre os desejos dos homens. E, quando o faz, dizias, mais tarde vai pedir contas.
Ensinaste-me a ser gentil com as pessoas porque, acreditavas, uma palavra afectuosa pode fazer a maior diferença no dia de alguém - era assim, que tu, homem simples, sem saber ler ou escrever, mas tão conhecedor da realidade, cuidavas de quem se abeirava de ti. Ensinaste-me que a vida se deve levar com um sorriso nos lábios e que não há contrariedade que não se torne mais leve com um abraço amigo. Sabias do que falavas: a amizade era a tua pedra de toque.
Tal como a tua família, que era, afirmavas sem qualquer hesitação, a melhor do mundo; nunca nada, nem ninguém, nem sequer os teus amigos que, por te conhecerem esse amor devoto e incondicional, brincavam e gracejavam com tamanha vaidade, te conseguiram dizer o contrário. Eras vaidoso, contigo e com os teus: pela parte que me toca, gostavas do meu cabelo comprido, gostavas-me vestida de cores alegres, de saia ou vestido.
Gostavas do meu jeito de maria-rapaz, das minhas brincadeiras que, inevitavelmente, metiam bichos e flores e pedras e paus e ervas. Não o admitias, tentando preservar um certo clima de estabilidade familiar (o entendimento lá de casa era o que destas coisas da educação sabem mais as mulheres - argumento batido e rebatido, lembras-te?); por isso, encaminhavas-me para divertimentos mais adequados à minha condição de menina, mas ambos sabemos, vibravas e acalentavas (quando só os dois) a minha ânsia de te acompanhar e de marcar presença em todos os momentos que sabia que contavam.
Graças a ti, vi e vivi a condição humana reduzida às suas limitações, tive grandes alegrias (olha, vai nascer! já nasceu! posso pegar-lhe? deixa, vá lá...), tive grandes tristezas ( não podes ajudar? da outra vez conseguiste! não...), mas sobretudo vivi os melhores anos da minha vida, cresci feliz e protegida de tudo aquilo que sabias (e como sabias!) que podia perturbar o meu sorriso.
Já depois, quando já não desfrutávamos da companhia um do outro por inteiro, sempre foste a minha (única) árvore, de raízes profundas, tronco forte e copa frondosa onde tantas vezes me enlaçei na busca daquele abraço que me fazia renascer e sentir novamente protegida.
Hoje lembro-te e sorrio, porque continuo a sentir o teu abraço e continuo a sentar-me no teu colo enquanto esperas que os cogumelos selvagens que colheste assem na lareira, para depois, com manteiga e uma pitada de sal, nos deliciarmos, e eu, lambuzada, dizer-te: "Tão bons, avô! Trazes mais amanhã?"