Não gostava daqueles dias em que não lhe podia ouvir a voz.
A distância física, inevitável, porque imposta por motivos profissionais não lhe pesava. Causava-lhe saudades, muitas saudades, vontade de o ver, de o sentir, de o tocar... vontade de tudo o que sabia impossível, pelos quilómetros que os separavam, mas não lhe trazia qualquer tipo de angústia ou de pesar.
Mas o mesmo não acontecia pela falta da voz, daquela voz que, todas as noites antes de dormir a embalava e a encaminhava para dias futuros.
A ausência da voz dele deixava-a triste, descontente...
Descontente até se o dia era um daqueles em que tudo corre na perfeição, em que os acontecimentos assumem vontade própria, sucedendo-se numa escala de tudo o que deve dar-se bem.
Mesmo nesses momentos, a falta da voz dele roubava-lhe cor ao dia, enfraquecia o brilho do sol ou tornava a chuva mais sombria.
E, então pensava que, na sua vida, teria mais dias daqueles, daqueles que não gostava.
Mas, aí chegada, pensava também que, mais que esses dias, seriam os outros, aqueles que não só teria a voz, mas a presença, o corpo, as mãos, a boca e o abraço.
E tudo voltava a fazer sentido e o sol refulgia ou a chuva tornava-se luminosa, branqueando qualquer réstia de tristeza que lhe tivesse ficado.
